Transformações sociais em Altamira, PA

Thiago da Costa Oliveira, direção de vídeo e texto
Fabio Nascimento, direção de vídeo e fotografia
[pesquisa convidada]

Altamiras

Antes de chamar-se Altamira, chamava-se Tabaquara, termo que pode ser traduzido do Tupi como “ex-aldeia”. Era território de povos indígenas como os Kuruaya, os Xipaya, os Arara e os Juruna. Antes de ser Tabaquara, visitada pelo príncipe Adalberto da Prússia e pelo naturalista francês Henri Coudreau no final do século XIX, foi Imperatriz, uma missão Jesuíta formada por Roque de Hundefund, em meados do século XVII.

Altamira foi e é um lugar estratégico de ocupação do Xingu e da Amazônia como um todo. Sua formação se deu tardiamente, em função da dificuldade de navegação acima da volta grande do Xingu, trecho encachoeirado que por vezes levava até 30 dias para ser navegado.

Ao longo de sua história, a cidade esteve sempre submetida aos interesses econômicos que marcaram cada época. Foi ocupada seguidamente por missionários, seringueiros, gateiros, madeireiros, agricultores e mais tarde por empregados de projetos de desenvolvimento, em especial por aqueles conectados à construção da rodovia Transamazônica, e, mais recentemente, da Usina Hidroelétrica de Belo Monte.

Em cada uma destas épocas cicatrizes foram, e seguem sendo deixadas no território e na vida dos habitantes da região. Nos últimos 50 anos, contudo, a velocidade desse fluxo aumentou significativamente. A cidade cresceu, 80 vezes o seu tamanho, enquanto a população brasileira, em média, cresceu 20% no mesmo período.

Com apenas 1809 habitantes em 1950, Altamira tem hoje, segundo dados de 2016, 109.938 moradores.

A velocidade com que estas transformações têm ocorrido conecta-se ao apagamento das muitas histórias individuais, familiares e étnicas que fazem parte da ocupação da região. Esta história é formada pelas memórias de indígenas, seringueiros, gateiros, madeireiros, garimpeiros, agricultores, construtores de estradas e barrageiros – e de seus descendentes. Elas formam um tecido complexo, marcado pela sobreposição e, muitas vezes, pelo conflito.

A Pioneira

No atual Km 30 da BR Transamazônica entre Altamira e Brasil Novo, encontra-se uma comunidade formada por migrantes que se transferiram para a região antes mesmo que o presidente Emílio Garrastazu Médici resolvesse abrir aquela que, nos anos 1970, era chamada de “rodovia da esperança”.

Distanciando-se das secas e epidemias que assolavam o Nordeste do país no começo do século XX, estes agricultores buscaram terras “livres” na Amazônia. Chegaram à região na esteira do incentivo à coleta do látex das seringueiras, mas rapidamente descobriram que as terras que esperavam “libertas” estavam ocupadas por indígenas por todo lado. Descobriram também que estavam isolados em um território desconhecido. As “pragas”, as chuvas, o calor: tudo era novo. O trabalho na terra lentamente os “amazonizou”. Hoje são estrangeiros e ao mesmo tempo nativos. Vieram de fora e conhecem a floresta de dentro. Suas histórias são agora marcadas pela afirmação do seu papel na formação social da maior floresta tropical do planeta.

A Estrada

Quando chegaram, os Pioneiros não sabiam que o terreno que ocuparam seria atravessado por uma das maiores obras dos governos militares no Brasil. A Rodovia Transamazônica, cuja construção foi iniciada na década de 1970, marca um período em que a região simbolizava a esperança de um Brasil grande e integrado. A Transamazônica representou a retomada do crescimento econômico da região – desconectada da economia do país desde o fim do auge da extração da borracha após a segunda guerra mundial.

A estada trouxe consigo trabalhadores da construção civil e agricultores de todas as regiões do Brasil, atraídos pelas promessas de trabalhos formais e assentamentos rurais, respectivamente. A Transamazônica provocou mudanças profundas em Altamira, iniciando um processo de crescimento populacional sem precedentes. A cidade se tornou efetivamente urbana neste período. A população subiu rapidamente de cerca de seis para 45 mil pessoas, inaugurando o ritmo de crescimento vertiginoso que se seguiria até o presente. Com o crescimento, vieram muitos problemas. A começar pelas obras da estrada, que nunca foram inteiramente concluídas.

Os trechos abertos na floresta com grande entusiasmo registrado a época, na forma da luta entre os homens e as gigantes castanheiras, permanecem em sua maioria não asfaltados.

A construção da transamazônica consolidou conflitos que fazem parte da constituição da história da região. Conflitos com indígenas, que resultaram no contato de inúmeros povos até então isolados. Conflitos com o meio ambiente, que levaram a taxas cada vez mais altas de desmatamento e outras formas de destruição da floresta, tais como a mineração e a caça de espécies animais protegidas.

Na cidade, surgiram áreas de ocupação precárias sobre os grandes igarapés que cercam Altamira. Os “baixões” se tornaram lugares associados à marginalidade, ao crime, à pobreza. A estrada só viria a ser asfaltada, no trecho que corta Altamira, com a chegada de um novo empreendimento de grandes dimensões, a construção da Usina Hidroelétrica de Belo Monte.

A Barragem

Antes um empecilho para a ocupação do médio curso do rio Xingu, a “Volta Grande”, localizada a cerca de 40 km abaixo de Altamira seria a área escolhida pelo Consórcio Norte Energia (CNE) para implantação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (UHBM). A obra teve início em 2011 e geraria novas transformações na região, aprofundando conflitos com indígenas, com o meio ambiente, e com a população que ali, ao longo dos anos anteriores à obra, havia se instalado.

Os números de Belo Monte são alarmantes. Para gerar energia, o lago criado pelo barramento do rio levou ao alagamento de 130 km2 de floresta no entorno da Volta Grande do Xingu. Mais de 450 ilhas foram para o fundo do rio, sendo os moradores removidos. A remoção também atingiu os moradores das áreas no entorno dos igarapés que cercam a cidade. No total, foram mais de 8 mil famílias, cerca de 40 mil pessoas e 25% da área do município atingidas pelo reordenamento territorial colocado em marcha pela construção da usina.

O destino da maioria dos removidos foram os insalubres Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs). Feitos às pressas pelo CNE, estes locais não ofereciam condições mínimas para habitação e impunham sobre os moradores uma forma completamente distinta de relação com o meio em que viviam. Neste processo, foram desrespeitados direitos básicos ligados à saúde física, mental, à autonomia financeira e ao modo de vida dos moradores situados nas áreas alagadas pela barragem.